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quinta-feira, 20 de maio de 2010

Miragem

Daqui, da minha Torre de Menagem,
Vejo florir, ao longo da planície,
«Montes» caiados vindo à superfície,
Como beijos de luz sobre a paisagem.

E, longe, muito longe, que miragem!
Um traço azul, Senhor, como se eu visse
O mar imenso, além, que nos abrisse
A novos horizontes a passagem!

Quem me dera partir, pelo mar fora!
Sonhar de novo, à luz de cada dia,
As ilusões que em mim senti outrora!

Quanta imaginação! Quanta amargura!
Por esse mar de louca fantasia,
Meu pobre coração vai à procura…

Estremoz (na Torre de Menagem)
Primavera de 1939

Flor sem nome

Eis que, na estiagem bárbara, surgiu,
Num canto de jardim abandonado,
Espécie inverosímil de relvado,
Como a graça dum sonho que floriu!

Rasteirinho, tão leve, coloriu
Dum amarelo vivo acentuado
Esse tapete simples, matizado,
Que um não sei quê de vida resumiu!

Foi bem do Céu esta pequena oferta!
«Flor sem nome», que um sopro desvanece…
Mas que perfuma a casa mais deserta!

Quantas vezes, em nós, isso acontece!
Um sonho… uma ilusão que assim desperta…
No coração que, morto, nos parece…

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Alma alentejana

Agosto em brasa… O céu, de zinco ardente,
Palpita em «calma», desde a madrugada,
E a terra inteira seca, revoltada;
Todo o arvoredo sangra, impaciente!

Os «restolhos» crepitam na «queimada»
Deste sopro de lava incandescente,
Que se reflecte em fogo, no poente,
Em mágica visão alucinada!

Nem mesmo quando chega a noite escura,
Um bálsamo suave de frescura
Envolve a terra em místico sudário!

Mas, por que fantasia de ternura
Minha alma alentejana só procura
Este louco e fantástico cenário?

Conselho

No meu passado há sol: há claridade,
Que à sombra do futuro resplandece,
Quanto mais o caminho me escurece,
No presente, que é feito de saudade.

Encontro ainda tanta suavidade
Ao relembrar! Ás vezes, me acontece
Sentir o coração que me envelhece,
A reflorir de novo em mocidade!

Sempre é doce o passado recordar:
- Aprende a envelhecer tranquilamente,
Colhe da vida o que ela te quer dar…

Envelhecer assim não custa nada:
É como quem procura, no poente,
A estrela que brilhou na madrugada…

terça-feira, 18 de maio de 2010

Primavera

Quero-te bem, ó doce primavera,
Que vens encher de cor a minha vida:
Minha irmã – alegria tão querida,
Meu ideal de sonho, de quimera!

Em mim, sentir-te sempre, quem me dera;
Adoro ver a terra assim florida,
Por esse teu aroma entontecida,
Toda vida, glicínias, folhas de hera.

Eu vou colher, além, nos olivais,
Madressilvas, roselas, lírios bravos,
A anémona, um lilás de tons ideais…

A primavera passa…mais um dia…
E, sobre a mesa, vão murchando os cravos…
Como o Tempo esfolhou minha alegria!

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Além-Tejo

Ao grande elegíaco de Além-Tejo:
Mário Beirão


«Ó planícies extáticas», dormentes,
Vão beijar-vos meus olhos desbotados,
Cor da azinheira triste dos montados,
Como pegos, à noite, reluzentes!

E, assim, ao ver-vos, quedam-se frementes:
Terras sem fim, restolhos abrasados,
Infindos horizontes, descampados,
Miragens que me trazem os poentes…

Nessa hora de inertes desalentos,
Fico-me a olhar, profundamente calma,
As vestidões… um mar de pensamentos!

Barros sangrando… cal de incertos «montes»…
Oh Além-Tejo, oh alma da minha alma,
Bate o meu coração nos horizontes!

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Flor de Esteva

Venho encontrá-la já quase a morrer,
A minha pobre «esteva do montado»,
Que, antes, eu vira alegre, florescer,
Junto à «linda» riscada pelo arado!

Levei ao Casalinho de Bel Vêr
A rainha do grande descampado;
Mas ela não quis mais ali viver,
Sem «maios» e «roselas» ao seu lado.

Falta-lhe o ardor do sol alentejano,
Aquela sombra amiga dos sobreiros…
Já não teve as «geadas» deste ano.

E morre de saudade e nostalgia,
Sem ter o barro e a cal por companheiros,
Queimada pelo ar da maresia…


Casal de Bel Ver – Ericeira *
Outono de 1935

*casa dos seus Avós Maria Catarina de Sousa Coutinho e Alberto Osório de Castro

quarta-feira, 12 de maio de 2010

À MEMÓRIA DE MEU AVÔ, O POETA ALBERTO OSÓRIO DE CASTRO

Ali fiquei ao pé do meu Avô,
Até que Ele partiu
Para não mais voltar…
Mas, o seu espírito ficou;
E, na saudade eterna, refloriu
Para me deslumbrar…
O melhor que Ele tinha me legou:
A sua fantasia
De ardente crepitar;
Este anseio em que vivo a delirar,
De voo em voo;
Esta melancolia…

terça-feira, 11 de maio de 2010

Inscrição no livro FLOR DE ESTEVA

Desse bruxo em delírio - transportado
Evocador do Oriente e do seu flóreo
Esplandecer - do grande Alberto Osório
Herdaste a febre em que ele ardeu, extasiado:

Ergues a voz...e o raso descampado
De Além-Tejo a perder-se, merencório,
Como que aspira ao Céu; cresce, incorpóreo,
Em teu canto, nos ecos espraiado!

Oh, que sabor de terra em tuas rimas!
Falas de estevas, urzes, folhas secas:
No verso, em que as exaltas, te sublimas!

Cantas...e um Anjo, ao largo, se suspende:
Pasma, a escutar...e a noite das charnecas,
Mais fúnebre, masis cálida, rescende...

MÁRIO BEIRÃO

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Natal

Todo o cenário é triste, nesta hora:
O mundo a arder; a terra ensanguentada;
Entardecer de vida, que apavora;
Depois, a cinza… o nada…

Mas o Natal caminha para nós,
Tão calmo e luminoso,
Como um luzeiro límpido e veloz,
Atravessando o céu tempestuoso !
- Meu lindo cromo antigo !
Eis o presépio santo de Jesus,
Como um saudar amigo,
Animando a levar a nossa cruz !
Jesus-Menino, ante a visão da morte,
É vida que ressurge novamente !
Que a Sua bênção traga boa sorte
Ao coração da gente,
E que os Seus olhos de Menino-Deus
Não se fechem de assombro e de tristeza,
Que mandem lá dos Céus
A graça divinal à Natureza !
Que o mundo sinta um novo coração,
Que se transforme a alma arrependida,
Toda bondade e toda compaixão,
A palpitar de vida !
Que o mau se afaste e só o bom domine !
Deus sabe o que há-de ser…
E tudo, tudo mais, que determine,
Em Sua omnipotência, o mundo há-de fazer !

Nosso desejo se resume
Em palavras de amor !
Que a torva guerra apague o estranho lume…
E se viva na graça do Senhor…