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quarta-feira, 17 de novembro de 2010

AQUELA PORTA…

Aquela porta… sim! aquela porta
sempre cerrada,
é sentinela morta,
que surge à entrada
do caminho da Vida!
Eu quero passar,
na estrada comprida
e cheia de luar!
Aberta esta porta,
a Vida é lá fora,
por mim a chamar!
Eu quero passar,
viver esta hora…
o resto, que importa?
Há música, há luzes, há gente que vive,
e tem o que eu sonho, e tem o que eu não tive!

É tarde, afinal… já não devo passar!
E caio, de joelhos, à porta, a chorar!

ALÉM DA MORTE

À memória da minha querida Avó

Tanto de mim se foi naquela hora
que sinto a minha vida quase morta…
mas presa, ainda, ao Mundo, pois não corta
as grades da prisão que me apavora!

Quero partir de todo! À minha porta,
a sua voz dorida, reza, implora,
para que a vá seguindo como outrora,
se o que resta da vida não me importa…

Tanto, tanto de mim foi a enterrar
com sua doce imagem de marfim,
que, além da Morte, há-de chamar por mim!

Ah, pudesse eu cumprir o meu desejo:
levar-lhe a minha vida… e, num só beijo,
dizer-lhe que podia descansar!

ÀQUEM

Os meus olhos, ao largo do horizonte,
perdem-se em vão anseio de Infinito!
Tudo é estéril tristeza! E, ao vento aflito,
desoladoramente, inclino a fronte!

Nem o clarear dum gesto que me aponte
o terminar da noite em que me agito;
sem que, da noite, enfim, se solte um grito,
sem que a luz dum milagre, enfim, desponte!

Sei, apenas, que vivo, porque existe,
sangrando, no meu ser, esta amargura,
que jamais me abandona: em mim persiste…

Vai mais longe que os longes da Planura
o meu olhar nevoento e vago e triste,
sempre àquem do que sonha e que procura!

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

MINHA ALMA

Minha alma de cigana é trágica e selvagem…
que rutila miragem,
que sonho ideal procura,
no deserto sem fim da sua noite escura?

Heráldica de dor: a sua imagem
é flama de Ansiedade, em campo de Amargura!

VENTO SUÃO

Toda a noite chorou, à minha porta,
o vento «suão»…
Foi arrastando tanta folha morta!
mas, não poude levar meu coração:
porque, pesado de ais, nenhuma força o leva!
Fica a morrer, ao abandono, em minha treva,
na minha solidão!

O ROUXINOL

O rouxinol cantara à Noite imensa,
(sobre este freixo, aqui, mesmo ao meu lado…)
cantara, como em sonhos, embriagado
de luar… e a Noite, em sua voz, era suspensa…

Cantou! Cantou! A Noite, por encanto,
abriu-se em flor… e, leve e pura e calma,
rescendia de Graça… o rouxinol cantava…

Porque, meu Deus! a espaços, entretanto,
de gostoso sofrer, baixinho soluçava,
erma e triste, a minha alma?

SÃO JOÃO DE DEUS

Ele nasceu nesta planície imensa,
que Deus tocou de graça merencória:
desde esse instante – como recompensa –
a terra abre-se em luz, abrasa em Glória!

Deus lhe marcou, sorrindo, almo destino:
ser Santo… ser herói… e sobrehumano
Poder… excelsa afirmação… divino
penhor da fé do Povo Alentejano!

Oh Montemor, aos claros céus erguida,
como oração – suspenso belveder –
foste madre de tão preciosa vida:
ficaste para sempre a esplandecer!

VISÃO DA ARRÁBIDA

Ao Professor Francisco Gentil

A paisagem que avisto é uma aguarela calma…
Em sua plácida beleza,
extasiada, transmite à nossa alma
a dádiva do Céu à Natureza!
Não se procura: vem, suavemente…
entrega-se, confiante;
dentro da gente,
fica a florir… é doce, instante a instante!

Ah, como eu sinto o bem da sua imagem:
abranda esta crueza, chama à Vida
meu revoltoso espírito selvagem!
Minha alma que se afoga, ennoitecida,
acorda ao resplendor desta visão
de imensa claridade…
e eu ergo para Deus uma oração…
e é todo puro o sonho que me invade!

A Serra beija o Céu, direita, a prumo,
e vai lançar-se ao mar que espuma em rendas…
Nos longes, há distâncias quase em fumo,
e o mar tem arabescos de legendas,
rimas de luz
de Agostinho da Cruz…
e pairam, num enlevo,
contas do seu rosário, em versos brandos,
que o Tempo anda a rezar, à flor do trevo:
pombas brancas sem fel…suaves bandos…
Do Céu azul, de seda transparente,
tomba divina unção que envolve tudo!
O sol é oiro quente…
os vastos pinheirais são de veludo,
as velas são papel rasgado ao vento,
sobre o mar de esmeralda e superfície lisa…
E este momento
parece eternizar-se… em sonho cristaliza!

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

CAMPONESA

Ao Dr. Marques Crespo


Só falarei de ti,
(nada mais sei dizer…).
Oh Terra onde nasci
e onde quero morrer!

Há qualquer coisa em ti que me pertence
e será sempre minha;
só tua voz amiga me convence,
só ela me acarinha!
Mesmo distante, sempre estou a ver-te,
na poética lembrança que me invade ;
se meu coração ri e se diverte,
por ti, chora, desfeito de saudade!
Tu falas à minha alma com ternura
de mãe abençoada,
desde o romper da aurora à noite escura,
desde o sol-posto à luz da madrugada!
Eu sinto que me chama docemente
tua presença calma,
quando a tristeza imensa do poente
se reflecte nas sombras da minha alma!

Que me conserve Deus a minha casa,
na terra onde nasci,
e, na lareira, o fogo duma brasa,
onde a velha «boneca» me sorri:
Um «monte», apenas, branco, refulgente,
de «roda-pé» garrido,
aberto a toda a gente,
sempre de luz vestido!
Loiça vidrada, que saiu da feira,
para enfeitar,
e bilhas, frescas, sobre a «cantareira»,
para a sede de todos mitigar;
«arame» rebrilhante como espelho,
entre vasos de flores,
e esteiras novas de bonitas cores,
tingindo de alegria o chão vermelho…
Ambiente perfumado
de fruta pendurada e rosmaninho…
e pombas no beiral do seu telhado…
(Passam ranchos, cantando ao longo do caminho…)
Tudo ali resplandece, tudo brilha,
como um dia de festa!
Nos alegretes goivos e baunilha…
Ai, como a vida é boa assim modesta!

Eu, para ser feliz, não quero mais
do que este sonho, - simples aguarela:
à porta, uma latada e dois «poiais»,
e, sobre o poente, aberta, uma janela…
Gosto de ver o sol adormecer,
(graça que me ficou da alegre infância)
cerrando os olhos para anoitecer
nos longes azulados da distância!
A completar o quadro sossegado,
um oratório e cruzes de alecrim,
e a «bruxa» acesa, sobre o altar sagrado,
onde a saudade, um dia, há-de chorar por mim…
Esperarei tranquila, a minha sorte,
neste lugar…

E, sem medo da Morte,
a um lusco-fusco de oiro, hei-de passar…

SANTO ANTÓNIO

Nesta noite vermelha de arraial,
nasce em minha alma um sentimento novo,
original:
quisera ser do Povo,
cantar ao Santo António, a rir, a rir,
em alegria louca…
e sentir o sabor dos cravos a florir
na minha boca!

Balões de cor,
cravos rubros aos molhos,
dariam aos meus olhos
vagos sonhos de amor!

E eu iria colher ,
com outras raparigas,
as alcachofras roxas: p’ra saber,
na fogueira da Vida, entre cantigas,
a minha «sorte»!

- Oh Santo António, qual a «sorte», que me espera:
Uma vida de morte?
Uma vida de clara primavera?

terça-feira, 9 de novembro de 2010

TARDE DE AGOSTO

A própria sombra é quente ainda,
sopram do poente bafos de fornalha;
qualquer coisa distante evoca uma saudade!
A música do «suão», em sua toada ardente,
arrebata a minha alma…
Sombras acordam, nesta luz de brasa,
sombras de Outrora,
sombras, talvez, de mim…
Adeja em febre o espanto das Queimadas,
e, em febre, é o meu cismar, da cor do lume!
Toda eu sou esparsa em longes, soledades,
nesta hora que passa,
nesta estranhesa,
que surge, ao derredor: no ar que se respira,
no «suão» aos ais, na esteva ressequida,
no silêncio do ocaso, todo em cinza…

«DE PROFUNDIS»

Dobram sinos de bronze, pelo espaço,
ecoa o «de profundis» num lamento,
o sol empalidece, triste e baço…
é o Estio a morrer, a cada passo,
a enterrar-se na luz deste momento.

A Terra veste cor de cinza escura;
nuvens toldam o ar, tornando-o espesso!
Há luto roxo em notas de amargura…
E tudo a sombra cobre e transfigura;
pressinto a Morte… e, lívida, arrefeço!

O Estio despediu-se, de repente!
(Adeus, oiro! Adeus, fogo purpurino!)
Despiu seu trajo rubro, incandescente…
como fogueira enorme, ao sol-poente,
ardeu na própria luz do seu destino!

Foi-se adensando a sombra no arvoredo,
desceu, desceu a noite silenciosa…
Résteas de sol ficaram em segredo
sobre as últimas rosas, quase a medo,
velando, em quietude religiosa…

Hora lilaz de místico abandono
envolve a campa enorme da Planura,
onde o Estio repousa em calmo sono…
A luz que anda nos céus é já de Outono,
insinua-se em nós, magoada e pura…

Mãos esguias de sombras o enterraram,
cobriram-no de poeira folhas mortas!
longamente, piedosas, o embalaram…
Em sinal das saudades, que ficaram,
cerra mais cedo a noite as suas portas!

MEUS PENSAMENTOS

Meus pensamentos bailam, desgrenhados,
Além, nesse horizonte, em «calma» alucinante,
dispersos nos restolhos abrasados,
perdidos pela curva larga e errante
deste bailado em fogo…
e, logo,
seguindo as chamas em delírio,
desfeita de martírio,
minha alma sangra ao vento!
Oh mágico «suão»,
tu planges, em teu lúgubre lamento,
o meu lamento em vão!
Meu corpo é terra ardente,
que se funde na hora incadescente!
Não me encontro, perdida na poeira,
febril, deste momento!
Meu coração
é toda a vastidão
da Terra em fogo, em alma, em sentimento!

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

RECORDANDO O PASSADO

A minha Irmã

Seguimos, ambas, pela estrada fora,
e lado a lado, como antigamente;
contudo, a vida hoje é diferente
dessa vida de outrora.
Nós mudamos, também…
(de criança a mulher vão tantas penas…!)
Tu, mais feliz do que eu, mulher e mãe,
eu só mulher apenas…

Mas, olhando a distância do passado,
sinto-o perto de nós,
talvez por caminhar, sempre a teu lado,
ouvindo a tua voz…
Tudo ficou assim do que era dantes,
nesta moldura amiga,
e os outros tempos, que lá vão distantes,
conservam, para nós, a graça antiga…

A mesma casa, em volta,
o cenário que sempre conhecemos…
(Triste, o silêncio, solta
lamentos das saudades que nós temos…)
Foi nesta rua, à sombra dos lilazes,
que se passou a nossa vida inteira;
agora, como nós, os teus rapazes
continuam a nossa brincadeira!

A tua filha és tu! Como quem sonha,
cerro os olhos um pouco,
e, ao vê-la, assim risonha,
(que pensamento louco!)
volto a ser o que fui antigamente!
(não são, pois, as crianças
que envelhecem a gente,
só nos vêem trazer doces lembranças!)
Que miragem tranquila!
Oh meu Deus, quem me dera,
sempre, sempre, senti-la,
num doce reflorir de primavera!

Como tudo é igual nesta saudade:
o perfume dos campos,
o som, a claridade,
e até, à noite, os mesmos pirilampos,
na relva do canteiro!
tudo, nesta saudade, recordamos!
Eu quase chego a crer que o mundo inteiro
desejara sonhar como sonhamos!
E seria tão bom que este ambiente
se conservasse calmo até ao fim:
nós, tranquilas, à espera do poente,
na sombra do jardim!
Envelhecer assim,
será mais doce;
nem daremos por tal,
porque o nosso passado iluminou-se,
como antigo vitral…

Que importa se mudámos?
Nesta hora,
embora a vida seja diferente,
seguimos ambas pela estrada fora…

Pudessemos segui-la, eternamente!


(Nota minha: o "cenário" é o mesmo daqui e daqui)

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

ELEGIA

À memória querida do meu Avô
Aberto Osório de Castro

Partiu contigo, Avô, toda a beleza,
que, em teu espírito, alada, resplendia:
fui o vitral, ao sol, que a reflectia,
confusamente, em pálida incerteza!

De ti vinha a Poesia!

Teus versos, que sonhavam primaveras,
tinham a luz das asas das Quimeras;
doiravam-me de sonho a natural tristeza!

Mas, não morreste, não! Eternamente,
o teu anseio eleva-se mais forte:
é Vida a perpetuar-se, além da Morte!

Mas, eu naufrago no meu sol-poente!

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

ROSEIRA EM FLOR

A minha Mãe

Quisera, minha Mãe, trazer-te, ainda,
um braçado de flores, qual se eu fosse
a sombra da saudade, aquela sombra doce,
que traz ao meu cismar tanta lembrança linda!
Ao ver florir, de novo, esta roseira,
que rimas veste e enlaça,
eu senti, na minha alma, a luz da madrugada
da clara infância que foi oiro e graça,
jardim suspenso sobre a terra inteira,
canção alada…
Tornei a ver-te, Mãe, nova e bonita,
e julguei-me criança, como outrora!
Ah, não poder voltar, ainda, agora,
ao meu bibe de chita!
Como o curso da Vida quer matar
as nossas ilusões,
os nossos corações…
E o Tempo, em sua indiferença, corre…
já florescem, de novo, os laranjais!
e, em nós, saudosa, a primavera morre,
a desfolhar-se em ais…

«ESPÍRITO CINZENTO»

Desde sempre acompanha a nossa casa
o «espírito cinzento», a horas mortas!
tão leve como sombra duma asa…
e, quando a noite imensa tudo arrasa,
perpassa como fumo pelas portas!

Não tenho medo, faz-me companhia…
mesmo sem vê-lo sei que está presente:
foi do meu sangue, em tempos que vivia…
não sei quem é… em sombra fugidia,
perpassa…e, pelo vago, se pressente…

Habituei-me a Ele… a conhecer
sua presença amiga, sem terror,
e, desde a minha infância, o estou a ver…
numa ansiedade o sinto aparecer…
rezo por Ele, rezo com fervor.

Ninguém o reconhece, com certeza,
mas Ele vem dos meus antepassados!
É triste…mas é minha essa tristeza,
essa angústia, esse mal, essa estranheza,
esse anseio, esse estuar dos meus cuidados!

Oh, meu «espírito» errante, velho amigo:
quando chegar a hora de eu morrer,
vem acudir-me…leva-me contigo!
que a boa Morte seja, então, comigo,
pois que fizeste parte do meu ser!

DIVISA

A meu Pai
«Da linhagem dos Sandes,
Ao serviço de Deus,
por todo o sempre. Ámen». – Senhor,
eis a divisa dos heróis, dos grandes,
a projectar a luz no destino dos seus,
que, na vida, cumpriram com amor
a Vossa lei, honrando a Fé cristã!
Que o brasão, que foi sol, nos tempos idos,
do alto do nome dos meus antepassados,
seja gloriosa luz, no dia de amanhã:
trespasse de mil dardos incendidos
outros peitos e os deixe alvoroçados!
E que o provir se cumpra nessa crença
heráldica do nome antigo e belo,
ufano de presença,
e firme como torres dum castelo!

Que Deus vos abençõe, futuras gerações,
detentoras do símbolo ancestral:
guardai a Fé, em vossos corações,
sabei morrer por Deus e Portugal!

MÁGOA

Foram cortar as árvores que eu tinha,
em frente da janela:
a mágoa foi só minha
e ninguém deu por ela…
Dizem que é dar mais vida ao arvoredo
cortá-lo assim…
talvez…
que vai florir melhor na primavera!
mas, tenho medo,
(ai de mim!)
que não torne a sentir, mais uma vez,
essa luz encantada de quimera.

Quem sabe, se até lá,
terminadas serão as minhas lidas,
e apenas esta mágoa ficará
a lembrar tantas árvores partidas!

Entrou mais luz na casa triste, é certo;
porém, a sombra aumenta,
no perdido deserto
da minha alma em tormenta…

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

ALMA DA PAISAGEM

Toda a minha alma é a alma da paisagem,
que se reflecte em bíblico cenário,
tornando a minha vida à sua imagem…
Soa o meu coração, bravo e selvagem:
única voz no campo solitário!