sexta-feira, 14 de maio de 2010

Além-Tejo

Ao grande elegíaco de Além-Tejo:
Mário Beirão


«Ó planícies extáticas», dormentes,
Vão beijar-vos meus olhos desbotados,
Cor da azinheira triste dos montados,
Como pegos, à noite, reluzentes!

E, assim, ao ver-vos, quedam-se frementes:
Terras sem fim, restolhos abrasados,
Infindos horizontes, descampados,
Miragens que me trazem os poentes…

Nessa hora de inertes desalentos,
Fico-me a olhar, profundamente calma,
As vestidões… um mar de pensamentos!

Barros sangrando… cal de incertos «montes»…
Oh Além-Tejo, oh alma da minha alma,
Bate o meu coração nos horizontes!

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Flor de Esteva

Venho encontrá-la já quase a morrer,
A minha pobre «esteva do montado»,
Que, antes, eu vira alegre, florescer,
Junto à «linda» riscada pelo arado!

Levei ao Casalinho de Bel Vêr
A rainha do grande descampado;
Mas ela não quis mais ali viver,
Sem «maios» e «roselas» ao seu lado.

Falta-lhe o ardor do sol alentejano,
Aquela sombra amiga dos sobreiros…
Já não teve as «geadas» deste ano.

E morre de saudade e nostalgia,
Sem ter o barro e a cal por companheiros,
Queimada pelo ar da maresia…


Casal de Bel Ver – Ericeira *
Outono de 1935

*casa dos seus Avós Maria Catarina de Sousa Coutinho e Alberto Osório de Castro

quarta-feira, 12 de maio de 2010

À MEMÓRIA DE MEU AVÔ, O POETA ALBERTO OSÓRIO DE CASTRO

Ali fiquei ao pé do meu Avô,
Até que Ele partiu
Para não mais voltar…
Mas, o seu espírito ficou;
E, na saudade eterna, refloriu
Para me deslumbrar…
O melhor que Ele tinha me legou:
A sua fantasia
De ardente crepitar;
Este anseio em que vivo a delirar,
De voo em voo;
Esta melancolia…

terça-feira, 11 de maio de 2010

Inscrição no livro FLOR DE ESTEVA

Desse bruxo em delírio - transportado
Evocador do Oriente e do seu flóreo
Esplandecer - do grande Alberto Osório
Herdaste a febre em que ele ardeu, extasiado:

Ergues a voz...e o raso descampado
De Além-Tejo a perder-se, merencório,
Como que aspira ao Céu; cresce, incorpóreo,
Em teu canto, nos ecos espraiado!

Oh, que sabor de terra em tuas rimas!
Falas de estevas, urzes, folhas secas:
No verso, em que as exaltas, te sublimas!

Cantas...e um Anjo, ao largo, se suspende:
Pasma, a escutar...e a noite das charnecas,
Mais fúnebre, masis cálida, rescende...

MÁRIO BEIRÃO

sexta-feira, 16 de abril de 2010

16 de Abril 1910




"Nada chegou a tempo... Fui morrendo,
Por caminhos dispersos,
Onde a Cruz dos meus versos
Era a única luz resplandecendo ! "

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Natal

Todo o cenário é triste, nesta hora:
O mundo a arder; a terra ensanguentada;
Entardecer de vida, que apavora;
Depois, a cinza… o nada…

Mas o Natal caminha para nós,
Tão calmo e luminoso,
Como um luzeiro límpido e veloz,
Atravessando o céu tempestuoso !
- Meu lindo cromo antigo !
Eis o presépio santo de Jesus,
Como um saudar amigo,
Animando a levar a nossa cruz !
Jesus-Menino, ante a visão da morte,
É vida que ressurge novamente !
Que a Sua bênção traga boa sorte
Ao coração da gente,
E que os Seus olhos de Menino-Deus
Não se fechem de assombro e de tristeza,
Que mandem lá dos Céus
A graça divinal à Natureza !
Que o mundo sinta um novo coração,
Que se transforme a alma arrependida,
Toda bondade e toda compaixão,
A palpitar de vida !
Que o mau se afaste e só o bom domine !
Deus sabe o que há-de ser…
E tudo, tudo mais, que determine,
Em Sua omnipotência, o mundo há-de fazer !

Nosso desejo se resume
Em palavras de amor !
Que a torva guerra apague o estranho lume…
E se viva na graça do Senhor…