quarta-feira, 16 de junho de 2010

Prece

Avé Maria, minha Mãe do Céu:
Novembro, o mês da morte, aproximou-se,
Toldando o nosso olhar como se fosse
Um denso véu.
Há rosas desmaiadas no canteiro;
É triste a luz do dia;
Parece que um anseio de agonia
Envolve o mundo inteiro!

Rezemos pelos mortos, nesta hora;
Oh Mãe do Céu, ouvi a nossa prece!
Olhai, até parece
Que a natureza chora!
A chuva cai, espavorida;
O vento agita-se, bravio,
Transindo-nos de frio
A alma dolorida!

- Dai aos mortos, Senhor, a paz infinda
Que só no Céu existe,
E aos vivos, neste mundo, hostil e triste,
Uma crença maior, maior ainda!

terça-feira, 8 de junho de 2010

Canto

Canto a dor dos que sofrem, apagados,
A «calma», ao estio ardente,
Sol a sol, trabalhando, angustiados!
Canta a dor, canta a cruz dos revoltados,
No calvário bendito da semente!

Eu sou a voz dos simples, que se eleva,
O murmúrio de pena
Que ressurge na treva…
Eu sou a tez morena
Do que morre na arena
Pela vida que leva!

- Meus irmãos de agonia,
Meus irmãos de amargura:
Nesta luta do pão de cada dia,
A vossa mágoa
Anseia, como a terra que procura,
No céu, a gota de água…

Noite

No dia inteiro e triste,
Nada surgiu…
E só a dor persiste,
Só ela não partiu…
Dia feito de obscuros sacrifícios,
Sem artifícios,
Que ninguém viu…
Dia banal,
Inteiramente igual
Aos outros já passados:

Dias magoados,
Irmãos dos que hão-de vir
Até morrer,
Na forma de sofrer
E de sentir!
No dia triste,
No dia triste, quando anoiteceu
Mal se notou
Que a luz, aos poucos, se apagou,
Como quem renuncia e de tudo desiste,
Porque a noite era Eu…

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Incensação

Que a minha oração, Senhor
chegue até vós
como o perfume de incenso!
E que as minhas mãos erguidas
sejam o sacrificio da tarde.

Que o meu olhar acenda nas estrelas
a grande Fé de toda a humanidade!
Seja o meu coração rosa de sangue,
a abrir, a Vosso lado:
e a minha alma, Senhor,
o cântico de luz!

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Natal

Todo o cenário é triste, nesta hora:
O mundo a arder; a terra ensanguentada;
Entardecer de vida, que apavora;
Depois, a cinza… o nada…

Mas o Natal caminha para nós,
Tão calmo e luminoso,
Como um luzeiro límpido e veloz,
Atravessando o céu tempestuoso !
- Meu lindo cromo antigo !
Eis o presépio santo de Jesus,
Como um saudar amigo,
Animando a levar a nossa cruz !
Jesus-Menino, ante a visão da morte,
É vida que ressurge novamente !
Que a Sua bênção traga boa sorte
Ao coração da gente,
E que os Seus olhos de Menino-Deus
Não se fechem de assombro e de tristeza,
Que mandem lá dos Céus
A graça divinal à Natureza !
Que o mundo sinta um novo coração,
Que se transforme a alma arrependida,
Toda bondade e toda compaixão,
A palpitar de vida !
Que o mau se afaste e só o bom domine !
Deus sabe o que há-de ser…
E tudo, tudo mais, que determine,
Em Sua omnipotência, o mundo há-de fazer !

Nosso desejo se resume
Em palavras de amor !
Que a torva guerra apague o estranho lume…
E se viva na graça do Senhor…

Vertigem

Veste-me a noite a pálida mantilha
Do seu luar de espuma:
Oh, que fresca poeira de escumilha!
Meu coração é cravo de Sevilha,
Que entontece e perfuma…

A noite abre-me os braços;
Envolve-me o silêncio, - a estranha calma;
Nem pressinto os meus passos;
Oiço, apenas, suspiros da minha alma…

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Oração

Oh Além-Tejo!... Eu sinto essa beleza
Que só os nossos olhos sabem ver!
Qualquer coisa de nós… pena… tristeza…
Nem sei como dizer!
Abrindo o meu olhar à luz intensa
Do sol que resplandece,
Fico a adorar a minha terra imensa:
Envolvo-a numa prece!
Minha terra de fogo, minha vida,
Campos de oiro sem fim!
Ocasos, na planície adormecida,
Vozes que surgem a chamar por mim!

Sei lá dizer porque te quero tanto,
Oh minha irmã de luz!
Clara visão de encanto,
Que o meu olhar traduz!
Cerro os olhos, depois, devagarinho,
E fico a respirar o teu aroma forte:
Os estevais, a giesta, o rosmaninho!
E eu agradeço a Deus a boa sorte
De seres minha, oh terra de tristeza
E das meditações, - em áureo sonho acesa!

terça-feira, 1 de junho de 2010

Mote

Não sei a cor dos teus olhos,
São lindos, o mais não sei…
Sejam pretos ou castanhos,
Que importa, se os adorei?

Glosa

Foi numa tarde de feira,
P’la festa de São Mateus…
(Embora queira ou não queira,
Perdi meus olhos nos teus…)
- A boca a saber a sol,
Entontecida, fremente,
Nada há que me console…
E procuro, em toda a gente,

Teus lindos olhos que eu vi,
E nunca mais encontrei…
Sejam pretos ou castanhos,
Que importa, se os adorei?
Tinham encantos tamanhos
Que me prenderam a ti!
Não sei a cor dos teus olhos,
São lindos, o mais não sei!

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Silêncio

O silêncio da noite ergueu-se, agora,
Como fantasma que surgiu da bruma:
Silêncio enorme que se esfuma…
A vida é outra, agora:
A noite a idealiza…
A noite elege a calma Poesia,
Como um gesto de Deus, acaricia…
Tudo se abranda e purifica…
Minha alma é toda branca:
Sobre o negro da noite, ela aparece
Como gema de luz,
Que, em estojo de sonho, resplandece…

O meu moinho

Oh meu velho moinho! Que saudade!
Há quanto tempo já não vinha ver-te!
Minha doce lembrança! Vou dizer-te
O grato sentimento que me invade!

Encontro, agora, em ti a minha infância,
Meu eterno passeio de menina,
Num murmúrio de fonte cristalina
Se avisa em tintas leves e distância!

O meu banco de pedra! O rosmaninho,
Que há tanto aqui deixei e se conserva,
Como em cofre de sonho se reserva,
Florindo no passado, o meu caminho!

A tarde vai caindo, mansamente,
Mas eu nem dou por ela, enternecida,
Como quem vê num sonho a própria vida
A projectar-se ao longe, docemente!

Fico esquecida, assim, a recordar,
Matando esta saudade que trazia!
Como tudo é igual na fantasia
E na tranquila paz deste lugar!

Daqui avisto a minha terra, agora,
Como piedoso altar que se levanta,
Erguendo ao Céu essa Rainha Santa,
Que em milagres floriu, consoladora!

Que importa o tempo?... Eu vivo a fantasia!
Que importa a morte?... A vida é que domina!
Se até, na gota de água cristalina,
O mundo se renova, em cada dia…

Ai quem me dera aqui poder ficar,
Neste velho moinho, recordando!
Sem dar que pelo tempo ia passando,
Sem o tempo consigo me levar…

Estremoz – Janeiro de 1945

Melancolia

Porque trouxeste as horas já vividas
Para, neste momento, recordar?
Porque notaste as lágrimas caídas,
Que jamais tornaremos a chorar?

A vida não tem páginas relidas,
Tudo nela é constante renovar,
E nós somos as folhas ressequidas
Dum poema que o Outono vai rasgar…

Folhas mortas, que ficam sossegadas,
Deixai-as para sempre nas estradas…
Para que levantá-las, ventania?

Antes morrer na paz do esquecimento,
Do que ser arrastada pelo vento,
Em hora de cruel melancolia...

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Cantos da minha terra

Cantos da minha terra! que saudade,
Que profunda tristeza, que amargura!
Ecoam, longe em longe, na planura,
Repercutindo a pena que me invade…

Lamentações cortantes de ansiedade,
Tristes canções chorando, com ternura,
Um não sei quê de pena que tortura,
Encantação que traz fatalidade!

A mim, porque nasci alentejana,
(Sangue de moira em raça lusitana…)
Tudo me prende aqui, tudo me atrai!

Envolve-me esta sombra de agonia:
A tristeza que paira, ao fim do dia,
Num canto que se alonga e é sempre um ai!