sexta-feira, 29 de outubro de 2010

ROSEIRA EM FLOR

A minha Mãe

Quisera, minha Mãe, trazer-te, ainda,
um braçado de flores, qual se eu fosse
a sombra da saudade, aquela sombra doce,
que traz ao meu cismar tanta lembrança linda!
Ao ver florir, de novo, esta roseira,
que rimas veste e enlaça,
eu senti, na minha alma, a luz da madrugada
da clara infância que foi oiro e graça,
jardim suspenso sobre a terra inteira,
canção alada…
Tornei a ver-te, Mãe, nova e bonita,
e julguei-me criança, como outrora!
Ah, não poder voltar, ainda, agora,
ao meu bibe de chita!
Como o curso da Vida quer matar
as nossas ilusões,
os nossos corações…
E o Tempo, em sua indiferença, corre…
já florescem, de novo, os laranjais!
e, em nós, saudosa, a primavera morre,
a desfolhar-se em ais…

«ESPÍRITO CINZENTO»

Desde sempre acompanha a nossa casa
o «espírito cinzento», a horas mortas!
tão leve como sombra duma asa…
e, quando a noite imensa tudo arrasa,
perpassa como fumo pelas portas!

Não tenho medo, faz-me companhia…
mesmo sem vê-lo sei que está presente:
foi do meu sangue, em tempos que vivia…
não sei quem é… em sombra fugidia,
perpassa…e, pelo vago, se pressente…

Habituei-me a Ele… a conhecer
sua presença amiga, sem terror,
e, desde a minha infância, o estou a ver…
numa ansiedade o sinto aparecer…
rezo por Ele, rezo com fervor.

Ninguém o reconhece, com certeza,
mas Ele vem dos meus antepassados!
É triste…mas é minha essa tristeza,
essa angústia, esse mal, essa estranheza,
esse anseio, esse estuar dos meus cuidados!

Oh, meu «espírito» errante, velho amigo:
quando chegar a hora de eu morrer,
vem acudir-me…leva-me contigo!
que a boa Morte seja, então, comigo,
pois que fizeste parte do meu ser!

DIVISA

A meu Pai
«Da linhagem dos Sandes,
Ao serviço de Deus,
por todo o sempre. Ámen». – Senhor,
eis a divisa dos heróis, dos grandes,
a projectar a luz no destino dos seus,
que, na vida, cumpriram com amor
a Vossa lei, honrando a Fé cristã!
Que o brasão, que foi sol, nos tempos idos,
do alto do nome dos meus antepassados,
seja gloriosa luz, no dia de amanhã:
trespasse de mil dardos incendidos
outros peitos e os deixe alvoroçados!
E que o provir se cumpra nessa crença
heráldica do nome antigo e belo,
ufano de presença,
e firme como torres dum castelo!

Que Deus vos abençõe, futuras gerações,
detentoras do símbolo ancestral:
guardai a Fé, em vossos corações,
sabei morrer por Deus e Portugal!

MÁGOA

Foram cortar as árvores que eu tinha,
em frente da janela:
a mágoa foi só minha
e ninguém deu por ela…
Dizem que é dar mais vida ao arvoredo
cortá-lo assim…
talvez…
que vai florir melhor na primavera!
mas, tenho medo,
(ai de mim!)
que não torne a sentir, mais uma vez,
essa luz encantada de quimera.

Quem sabe, se até lá,
terminadas serão as minhas lidas,
e apenas esta mágoa ficará
a lembrar tantas árvores partidas!

Entrou mais luz na casa triste, é certo;
porém, a sombra aumenta,
no perdido deserto
da minha alma em tormenta…

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

ALMA DA PAISAGEM

Toda a minha alma é a alma da paisagem,
que se reflecte em bíblico cenário,
tornando a minha vida à sua imagem…
Soa o meu coração, bravo e selvagem:
única voz no campo solitário!

ELOENDRO EM FLOR

Oh claro eloendro em flor, sangrando vida,
pelas ribeiras surges, campos fora,
e, ledo, e, tua graça enlouquecida,
roubas a cor à pura luz da Aurora!

És feito da minha alma reflorida,
desta alegria imensa que devora
toda a tristeza, esparsa e dolorida,
por esse descampado, nesta hora!

Quando a terra, sedenta, desfalece,
pelas ribeiras secas, prevalece
tua alegria, oh claro eloendro em flor!

E sobes…vais crescendo, como prece…
e a tua forma em fogo me parece
um coração a palpitar de Amor!

POENTES

De poentes de ígnea cor ando à procura
e vou colecionando, apaixonada:
hontem, hoje, amanhã, sempre encantada…
é quase uma ansiedade, uma loucura!

Adoro ver surgir a noite escura,
a esfolhar luz por suas mãos de fada:
luz a morrer, em pálida e doirada
agonia de cor e de amargura!

Poentes, em adeus, da minha terra,
de trágico fulgor, de tintas mansas,
sois em mim, como em álbum de lembranças!

Quanta ansiedade a vossa luz encerra,
quanta doçura e mágoa indefinida…
A vossa morte é a minha própria vida!

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

SIGNOS AMARGOS...

A vaga humana alastra, sinuosa:
ao longo da planície, é sombra imensa,
que, por escura via dolorosa,
vai lavrando enigmática sentença…
O sol banha de sangue a hora adormecida,
numa indolência moira… e a vaga espera…
mais outro dia igual, que vai matando a Vida…
uma angústia em que tudo se exaspera!
Nova expressão nos plainos infindáveis:
triste mancha sombria…
Signos amargos pairam, insondáveis;
uma revolta muda se anuncia!

Crise rural! Minha alma sofre e chora,
ante a visão de estranha realidade,
que me apavora,
que me traz em alarme de ansiedade!
A vaga aumenta:
em roxo escuro de tormenta,
em sua dor calcada e surda e bem humana,
enluta a vastidão da terra alentejana!

Eu, que pertenço à raça nobre e forte,
beijada, sol a sol, de luz ardente,
que nunca teme a Vida nem a Morte,
não reconheço a calma resignada,
a humilhante amargura
que me tortura,
porque a forma de ser da nossa raça
jamais se curva a quem por ela passa!
Irmã da terra mística e fremente,
eu sinto essa tristeza de agonia,
sinto-a em revolta duma angústia atroz,
porque ela, a terra, é nossa, e o pão de cada dia,
em nome de Jesus, pertence a todos nós!

terça-feira, 19 de outubro de 2010

ALMA ERRANTE

A Urbano Rodrigues
A estranha alma insondável da Planície,
qual misterioso encanto da lonjura,
enigmática paira à superfície,
numa espécie de cisma e de crendice,
que não se encontra aonde se procura!

Estremece, palpita, na distância;
seu vivo sortilégio me domina;
pressinto-a no fulgor da minha infância…
num misto de ansiedade e de inconstância,
brilha nos versos meus, em cada rima!

Não se dá, mas impera em nossa vida!
Sua presença atrai, indecifrável,
e, assim, tão desejada e proibida,
assombra, em sua forma indefinida…
esfíngica, mantém-se impenetrável!

Ela adeja na aragem que flutua,
nos alqueives dormentes, nos restolhos,
no pôr-do-sol, na palidez da lua,
na flor de esteva que, em perfume, estua,
e na tristeza imensa dos meus olhos!

Ela pertence a todos e a ninguém!
Certas noites, de sombras desgrenhadas,
piedosa, na minha alma se detém…
e, logo, parte…e, já desvaira, além,
toda de oiro, na chama das Queimadas!

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

«CARRETEIRAS»

Oh, o Alentejo dum estranho encanto:
completa solidão nos descampados;
léguas e léguas… caminhar de espanto;
labirintos sangrentos de montados!
Confusas «carreteiras», entre o piorno,
entre estevais de aromaforte e bravo,
entre o silêncio morno
de fundo musical ardente e cavo!
É este o meu caminho de aventura:
«carreteiras» de sonho sem limite,
onde a fala se perde na lonjura,
por muitoque se cante ou que se grite…

Vagas chamas de loucos pensamentos,
atalhos de sonâmbula tristeza,
encruzilhadas mortas e lamentos,
tudo em mim se confunde e é Natureza!

E fascina-me o pó da «carreteira» calma…
(Sonha, sonha, a minha alma!)

Caminho em desatino…
(É vago o meu olhar, triste o meu porte!)
Pobre sombra batida do Destino,
desfolhando ilusões inda em botão,
enterrando e pisando o coração,
na «carreteira» que vai dar à Morte!

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

SILÊNCIO

Adoro, à tarde, este silêncio amigo
e quedo-me a escutá-lo, num enlevo!
Parece que me fala a voz do trigo,
a rama do olival, a flor do trevo!
E os meus olhos tão cheios, a esta hora,
de singular meiguice,
vão perder-se, num sonho, campos fora,
ao longo da planície!
Até pequenas coisas lhes são caras…
no sonho doentio,
vão beijar os montados, mais as searas
e os ribeiros e as terras de pousio…

Nesta hora, no ambiente largo e calmo,
à pura luz dos Céus,
parece erguer um salmo
a Terra para Deus!

A tarde vai caindo, silenciosa;
a Cor, de rubra e trágica, tornou-se
em palidez de rosa:
desmaia, leve e doce…
A fogueira do poente
Foi-se extinguindo,
suavissimamente;
e, além, muito de manso, a lua vai subindo,
guardando, ainda, no calor do rosto,
o beijo do sol-posto!

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

ANOITECER

Ao Roberto
Rendas negras, em múltiplos recortes,
o arvoredo desenha sobre o fundo,
que sangrava fogo ardente, de tons fortes,
sobre a curva do Mundo!

É de cristal o Céu, na transcendência
do lusco-fusco mágico da hora:
desde o vermelho ideal à doce transparência
dum hálito de luz que se evapora!

Reclina-se, dormente, na penumbra
a Serra de Ossa, em vaga ondulação:
respira a luz da hora que deslumbra,
e tem o palpitar dum coração!
Um véu lilaz da infinda suavidade
cobre o seu corpo que descansa na planura…
Tudo é melancolia, soledade,
tudo outra vida, outra ilusão, procura!

E, mística e pagã,
cintila a grande tela do sol-pôr!
É rubra como os bagos da romã
são rubros, bárbaros de cor!
De tudo se desprende
um não sei quê de bíblico e selvagem…
minha alma se surpreende
a falar com as sombras da paisagem,
a compreendê-las…

Absortas, nascem, como em sonho, estrelas…