sexta-feira, 12 de novembro de 2010

MINHA ALMA

Minha alma de cigana é trágica e selvagem…
que rutila miragem,
que sonho ideal procura,
no deserto sem fim da sua noite escura?

Heráldica de dor: a sua imagem
é flama de Ansiedade, em campo de Amargura!

VENTO SUÃO

Toda a noite chorou, à minha porta,
o vento «suão»…
Foi arrastando tanta folha morta!
mas, não poude levar meu coração:
porque, pesado de ais, nenhuma força o leva!
Fica a morrer, ao abandono, em minha treva,
na minha solidão!

O ROUXINOL

O rouxinol cantara à Noite imensa,
(sobre este freixo, aqui, mesmo ao meu lado…)
cantara, como em sonhos, embriagado
de luar… e a Noite, em sua voz, era suspensa…

Cantou! Cantou! A Noite, por encanto,
abriu-se em flor… e, leve e pura e calma,
rescendia de Graça… o rouxinol cantava…

Porque, meu Deus! a espaços, entretanto,
de gostoso sofrer, baixinho soluçava,
erma e triste, a minha alma?

SÃO JOÃO DE DEUS

Ele nasceu nesta planície imensa,
que Deus tocou de graça merencória:
desde esse instante – como recompensa –
a terra abre-se em luz, abrasa em Glória!

Deus lhe marcou, sorrindo, almo destino:
ser Santo… ser herói… e sobrehumano
Poder… excelsa afirmação… divino
penhor da fé do Povo Alentejano!

Oh Montemor, aos claros céus erguida,
como oração – suspenso belveder –
foste madre de tão preciosa vida:
ficaste para sempre a esplandecer!

VISÃO DA ARRÁBIDA

Ao Professor Francisco Gentil

A paisagem que avisto é uma aguarela calma…
Em sua plácida beleza,
extasiada, transmite à nossa alma
a dádiva do Céu à Natureza!
Não se procura: vem, suavemente…
entrega-se, confiante;
dentro da gente,
fica a florir… é doce, instante a instante!

Ah, como eu sinto o bem da sua imagem:
abranda esta crueza, chama à Vida
meu revoltoso espírito selvagem!
Minha alma que se afoga, ennoitecida,
acorda ao resplendor desta visão
de imensa claridade…
e eu ergo para Deus uma oração…
e é todo puro o sonho que me invade!

A Serra beija o Céu, direita, a prumo,
e vai lançar-se ao mar que espuma em rendas…
Nos longes, há distâncias quase em fumo,
e o mar tem arabescos de legendas,
rimas de luz
de Agostinho da Cruz…
e pairam, num enlevo,
contas do seu rosário, em versos brandos,
que o Tempo anda a rezar, à flor do trevo:
pombas brancas sem fel…suaves bandos…
Do Céu azul, de seda transparente,
tomba divina unção que envolve tudo!
O sol é oiro quente…
os vastos pinheirais são de veludo,
as velas são papel rasgado ao vento,
sobre o mar de esmeralda e superfície lisa…
E este momento
parece eternizar-se… em sonho cristaliza!

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

CAMPONESA

Ao Dr. Marques Crespo


Só falarei de ti,
(nada mais sei dizer…).
Oh Terra onde nasci
e onde quero morrer!

Há qualquer coisa em ti que me pertence
e será sempre minha;
só tua voz amiga me convence,
só ela me acarinha!
Mesmo distante, sempre estou a ver-te,
na poética lembrança que me invade ;
se meu coração ri e se diverte,
por ti, chora, desfeito de saudade!
Tu falas à minha alma com ternura
de mãe abençoada,
desde o romper da aurora à noite escura,
desde o sol-posto à luz da madrugada!
Eu sinto que me chama docemente
tua presença calma,
quando a tristeza imensa do poente
se reflecte nas sombras da minha alma!

Que me conserve Deus a minha casa,
na terra onde nasci,
e, na lareira, o fogo duma brasa,
onde a velha «boneca» me sorri:
Um «monte», apenas, branco, refulgente,
de «roda-pé» garrido,
aberto a toda a gente,
sempre de luz vestido!
Loiça vidrada, que saiu da feira,
para enfeitar,
e bilhas, frescas, sobre a «cantareira»,
para a sede de todos mitigar;
«arame» rebrilhante como espelho,
entre vasos de flores,
e esteiras novas de bonitas cores,
tingindo de alegria o chão vermelho…
Ambiente perfumado
de fruta pendurada e rosmaninho…
e pombas no beiral do seu telhado…
(Passam ranchos, cantando ao longo do caminho…)
Tudo ali resplandece, tudo brilha,
como um dia de festa!
Nos alegretes goivos e baunilha…
Ai, como a vida é boa assim modesta!

Eu, para ser feliz, não quero mais
do que este sonho, - simples aguarela:
à porta, uma latada e dois «poiais»,
e, sobre o poente, aberta, uma janela…
Gosto de ver o sol adormecer,
(graça que me ficou da alegre infância)
cerrando os olhos para anoitecer
nos longes azulados da distância!
A completar o quadro sossegado,
um oratório e cruzes de alecrim,
e a «bruxa» acesa, sobre o altar sagrado,
onde a saudade, um dia, há-de chorar por mim…
Esperarei tranquila, a minha sorte,
neste lugar…

E, sem medo da Morte,
a um lusco-fusco de oiro, hei-de passar…

SANTO ANTÓNIO

Nesta noite vermelha de arraial,
nasce em minha alma um sentimento novo,
original:
quisera ser do Povo,
cantar ao Santo António, a rir, a rir,
em alegria louca…
e sentir o sabor dos cravos a florir
na minha boca!

Balões de cor,
cravos rubros aos molhos,
dariam aos meus olhos
vagos sonhos de amor!

E eu iria colher ,
com outras raparigas,
as alcachofras roxas: p’ra saber,
na fogueira da Vida, entre cantigas,
a minha «sorte»!

- Oh Santo António, qual a «sorte», que me espera:
Uma vida de morte?
Uma vida de clara primavera?

terça-feira, 9 de novembro de 2010

TARDE DE AGOSTO

A própria sombra é quente ainda,
sopram do poente bafos de fornalha;
qualquer coisa distante evoca uma saudade!
A música do «suão», em sua toada ardente,
arrebata a minha alma…
Sombras acordam, nesta luz de brasa,
sombras de Outrora,
sombras, talvez, de mim…
Adeja em febre o espanto das Queimadas,
e, em febre, é o meu cismar, da cor do lume!
Toda eu sou esparsa em longes, soledades,
nesta hora que passa,
nesta estranhesa,
que surge, ao derredor: no ar que se respira,
no «suão» aos ais, na esteva ressequida,
no silêncio do ocaso, todo em cinza…

«DE PROFUNDIS»

Dobram sinos de bronze, pelo espaço,
ecoa o «de profundis» num lamento,
o sol empalidece, triste e baço…
é o Estio a morrer, a cada passo,
a enterrar-se na luz deste momento.

A Terra veste cor de cinza escura;
nuvens toldam o ar, tornando-o espesso!
Há luto roxo em notas de amargura…
E tudo a sombra cobre e transfigura;
pressinto a Morte… e, lívida, arrefeço!

O Estio despediu-se, de repente!
(Adeus, oiro! Adeus, fogo purpurino!)
Despiu seu trajo rubro, incandescente…
como fogueira enorme, ao sol-poente,
ardeu na própria luz do seu destino!

Foi-se adensando a sombra no arvoredo,
desceu, desceu a noite silenciosa…
Résteas de sol ficaram em segredo
sobre as últimas rosas, quase a medo,
velando, em quietude religiosa…

Hora lilaz de místico abandono
envolve a campa enorme da Planura,
onde o Estio repousa em calmo sono…
A luz que anda nos céus é já de Outono,
insinua-se em nós, magoada e pura…

Mãos esguias de sombras o enterraram,
cobriram-no de poeira folhas mortas!
longamente, piedosas, o embalaram…
Em sinal das saudades, que ficaram,
cerra mais cedo a noite as suas portas!

MEUS PENSAMENTOS

Meus pensamentos bailam, desgrenhados,
Além, nesse horizonte, em «calma» alucinante,
dispersos nos restolhos abrasados,
perdidos pela curva larga e errante
deste bailado em fogo…
e, logo,
seguindo as chamas em delírio,
desfeita de martírio,
minha alma sangra ao vento!
Oh mágico «suão»,
tu planges, em teu lúgubre lamento,
o meu lamento em vão!
Meu corpo é terra ardente,
que se funde na hora incadescente!
Não me encontro, perdida na poeira,
febril, deste momento!
Meu coração
é toda a vastidão
da Terra em fogo, em alma, em sentimento!

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

RECORDANDO O PASSADO

A minha Irmã

Seguimos, ambas, pela estrada fora,
e lado a lado, como antigamente;
contudo, a vida hoje é diferente
dessa vida de outrora.
Nós mudamos, também…
(de criança a mulher vão tantas penas…!)
Tu, mais feliz do que eu, mulher e mãe,
eu só mulher apenas…

Mas, olhando a distância do passado,
sinto-o perto de nós,
talvez por caminhar, sempre a teu lado,
ouvindo a tua voz…
Tudo ficou assim do que era dantes,
nesta moldura amiga,
e os outros tempos, que lá vão distantes,
conservam, para nós, a graça antiga…

A mesma casa, em volta,
o cenário que sempre conhecemos…
(Triste, o silêncio, solta
lamentos das saudades que nós temos…)
Foi nesta rua, à sombra dos lilazes,
que se passou a nossa vida inteira;
agora, como nós, os teus rapazes
continuam a nossa brincadeira!

A tua filha és tu! Como quem sonha,
cerro os olhos um pouco,
e, ao vê-la, assim risonha,
(que pensamento louco!)
volto a ser o que fui antigamente!
(não são, pois, as crianças
que envelhecem a gente,
só nos vêem trazer doces lembranças!)
Que miragem tranquila!
Oh meu Deus, quem me dera,
sempre, sempre, senti-la,
num doce reflorir de primavera!

Como tudo é igual nesta saudade:
o perfume dos campos,
o som, a claridade,
e até, à noite, os mesmos pirilampos,
na relva do canteiro!
tudo, nesta saudade, recordamos!
Eu quase chego a crer que o mundo inteiro
desejara sonhar como sonhamos!
E seria tão bom que este ambiente
se conservasse calmo até ao fim:
nós, tranquilas, à espera do poente,
na sombra do jardim!
Envelhecer assim,
será mais doce;
nem daremos por tal,
porque o nosso passado iluminou-se,
como antigo vitral…

Que importa se mudámos?
Nesta hora,
embora a vida seja diferente,
seguimos ambas pela estrada fora…

Pudessemos segui-la, eternamente!


(Nota minha: o "cenário" é o mesmo daqui e daqui)

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

ELEGIA

À memória querida do meu Avô
Aberto Osório de Castro

Partiu contigo, Avô, toda a beleza,
que, em teu espírito, alada, resplendia:
fui o vitral, ao sol, que a reflectia,
confusamente, em pálida incerteza!

De ti vinha a Poesia!

Teus versos, que sonhavam primaveras,
tinham a luz das asas das Quimeras;
doiravam-me de sonho a natural tristeza!

Mas, não morreste, não! Eternamente,
o teu anseio eleva-se mais forte:
é Vida a perpetuar-se, além da Morte!

Mas, eu naufrago no meu sol-poente!