quinta-feira, 18 de novembro de 2010

CIUDAD RODRIGO

Ao Tio Alberto

Quando abri a janela,
que singular visão!
era como se os campos de Castela
me tivessem florido o coração!
Este ambiente acorda,
dentro de mim, uma saudade louca!
nem sei que me recorda…
Sinto a bênção do sol na minha boca!
Qualquer coisa de sonho que foi meu,
(lembrança pura e calma…)
como sabor de luz vinda do Céu,
entrou em mim, quedou-se na minha alma…

Esta paisagem grave que eu olhava,
à luz do sol, a vez primeira,
era aquela que sempre me falava,
que sempre conhecera a vida inteira!
Pareceu-me que toda a minha vida,
ali, florindo, fôra,
em paz embaladora,
doçura indefinida…
De noite, eu só, nessa janela aberta,
era como fantasma em seu castelo,
a contemplar a vida que desperta,
depois dum pesadelo!

Ali, talvez, sofrera em outra era,
ali teria amado…
e, assim, tudo ficara à minha espera,
à espera que eu tornasse do passado!

Reminiscência dalgum longe incerto,
ou divagar da minha fantasia,
ressurgindo (miragem no deserto…)
da minha louca e vã melancolia?

Perpetuamente,
sempre a sonhar contigo,
fique, batendo em ti, meu coração,
Oh burgo esplandecente,
minha paixão,
Ciudad Rodrigo!

Nota

Os poemas seguintes continuam a ser do livro TERRA ARDENTE, mas dentro do capitulo IMAGENS DE ESPANHA

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

AQUELA PORTA…

Aquela porta… sim! aquela porta
sempre cerrada,
é sentinela morta,
que surge à entrada
do caminho da Vida!
Eu quero passar,
na estrada comprida
e cheia de luar!
Aberta esta porta,
a Vida é lá fora,
por mim a chamar!
Eu quero passar,
viver esta hora…
o resto, que importa?
Há música, há luzes, há gente que vive,
e tem o que eu sonho, e tem o que eu não tive!

É tarde, afinal… já não devo passar!
E caio, de joelhos, à porta, a chorar!

ALÉM DA MORTE

À memória da minha querida Avó

Tanto de mim se foi naquela hora
que sinto a minha vida quase morta…
mas presa, ainda, ao Mundo, pois não corta
as grades da prisão que me apavora!

Quero partir de todo! À minha porta,
a sua voz dorida, reza, implora,
para que a vá seguindo como outrora,
se o que resta da vida não me importa…

Tanto, tanto de mim foi a enterrar
com sua doce imagem de marfim,
que, além da Morte, há-de chamar por mim!

Ah, pudesse eu cumprir o meu desejo:
levar-lhe a minha vida… e, num só beijo,
dizer-lhe que podia descansar!

ÀQUEM

Os meus olhos, ao largo do horizonte,
perdem-se em vão anseio de Infinito!
Tudo é estéril tristeza! E, ao vento aflito,
desoladoramente, inclino a fronte!

Nem o clarear dum gesto que me aponte
o terminar da noite em que me agito;
sem que, da noite, enfim, se solte um grito,
sem que a luz dum milagre, enfim, desponte!

Sei, apenas, que vivo, porque existe,
sangrando, no meu ser, esta amargura,
que jamais me abandona: em mim persiste…

Vai mais longe que os longes da Planura
o meu olhar nevoento e vago e triste,
sempre àquem do que sonha e que procura!

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

MINHA ALMA

Minha alma de cigana é trágica e selvagem…
que rutila miragem,
que sonho ideal procura,
no deserto sem fim da sua noite escura?

Heráldica de dor: a sua imagem
é flama de Ansiedade, em campo de Amargura!

VENTO SUÃO

Toda a noite chorou, à minha porta,
o vento «suão»…
Foi arrastando tanta folha morta!
mas, não poude levar meu coração:
porque, pesado de ais, nenhuma força o leva!
Fica a morrer, ao abandono, em minha treva,
na minha solidão!

O ROUXINOL

O rouxinol cantara à Noite imensa,
(sobre este freixo, aqui, mesmo ao meu lado…)
cantara, como em sonhos, embriagado
de luar… e a Noite, em sua voz, era suspensa…

Cantou! Cantou! A Noite, por encanto,
abriu-se em flor… e, leve e pura e calma,
rescendia de Graça… o rouxinol cantava…

Porque, meu Deus! a espaços, entretanto,
de gostoso sofrer, baixinho soluçava,
erma e triste, a minha alma?

SÃO JOÃO DE DEUS

Ele nasceu nesta planície imensa,
que Deus tocou de graça merencória:
desde esse instante – como recompensa –
a terra abre-se em luz, abrasa em Glória!

Deus lhe marcou, sorrindo, almo destino:
ser Santo… ser herói… e sobrehumano
Poder… excelsa afirmação… divino
penhor da fé do Povo Alentejano!

Oh Montemor, aos claros céus erguida,
como oração – suspenso belveder –
foste madre de tão preciosa vida:
ficaste para sempre a esplandecer!

VISÃO DA ARRÁBIDA

Ao Professor Francisco Gentil

A paisagem que avisto é uma aguarela calma…
Em sua plácida beleza,
extasiada, transmite à nossa alma
a dádiva do Céu à Natureza!
Não se procura: vem, suavemente…
entrega-se, confiante;
dentro da gente,
fica a florir… é doce, instante a instante!

Ah, como eu sinto o bem da sua imagem:
abranda esta crueza, chama à Vida
meu revoltoso espírito selvagem!
Minha alma que se afoga, ennoitecida,
acorda ao resplendor desta visão
de imensa claridade…
e eu ergo para Deus uma oração…
e é todo puro o sonho que me invade!

A Serra beija o Céu, direita, a prumo,
e vai lançar-se ao mar que espuma em rendas…
Nos longes, há distâncias quase em fumo,
e o mar tem arabescos de legendas,
rimas de luz
de Agostinho da Cruz…
e pairam, num enlevo,
contas do seu rosário, em versos brandos,
que o Tempo anda a rezar, à flor do trevo:
pombas brancas sem fel…suaves bandos…
Do Céu azul, de seda transparente,
tomba divina unção que envolve tudo!
O sol é oiro quente…
os vastos pinheirais são de veludo,
as velas são papel rasgado ao vento,
sobre o mar de esmeralda e superfície lisa…
E este momento
parece eternizar-se… em sonho cristaliza!

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

CAMPONESA

Ao Dr. Marques Crespo


Só falarei de ti,
(nada mais sei dizer…).
Oh Terra onde nasci
e onde quero morrer!

Há qualquer coisa em ti que me pertence
e será sempre minha;
só tua voz amiga me convence,
só ela me acarinha!
Mesmo distante, sempre estou a ver-te,
na poética lembrança que me invade ;
se meu coração ri e se diverte,
por ti, chora, desfeito de saudade!
Tu falas à minha alma com ternura
de mãe abençoada,
desde o romper da aurora à noite escura,
desde o sol-posto à luz da madrugada!
Eu sinto que me chama docemente
tua presença calma,
quando a tristeza imensa do poente
se reflecte nas sombras da minha alma!

Que me conserve Deus a minha casa,
na terra onde nasci,
e, na lareira, o fogo duma brasa,
onde a velha «boneca» me sorri:
Um «monte», apenas, branco, refulgente,
de «roda-pé» garrido,
aberto a toda a gente,
sempre de luz vestido!
Loiça vidrada, que saiu da feira,
para enfeitar,
e bilhas, frescas, sobre a «cantareira»,
para a sede de todos mitigar;
«arame» rebrilhante como espelho,
entre vasos de flores,
e esteiras novas de bonitas cores,
tingindo de alegria o chão vermelho…
Ambiente perfumado
de fruta pendurada e rosmaninho…
e pombas no beiral do seu telhado…
(Passam ranchos, cantando ao longo do caminho…)
Tudo ali resplandece, tudo brilha,
como um dia de festa!
Nos alegretes goivos e baunilha…
Ai, como a vida é boa assim modesta!

Eu, para ser feliz, não quero mais
do que este sonho, - simples aguarela:
à porta, uma latada e dois «poiais»,
e, sobre o poente, aberta, uma janela…
Gosto de ver o sol adormecer,
(graça que me ficou da alegre infância)
cerrando os olhos para anoitecer
nos longes azulados da distância!
A completar o quadro sossegado,
um oratório e cruzes de alecrim,
e a «bruxa» acesa, sobre o altar sagrado,
onde a saudade, um dia, há-de chorar por mim…
Esperarei tranquila, a minha sorte,
neste lugar…

E, sem medo da Morte,
a um lusco-fusco de oiro, hei-de passar…

SANTO ANTÓNIO

Nesta noite vermelha de arraial,
nasce em minha alma um sentimento novo,
original:
quisera ser do Povo,
cantar ao Santo António, a rir, a rir,
em alegria louca…
e sentir o sabor dos cravos a florir
na minha boca!

Balões de cor,
cravos rubros aos molhos,
dariam aos meus olhos
vagos sonhos de amor!

E eu iria colher ,
com outras raparigas,
as alcachofras roxas: p’ra saber,
na fogueira da Vida, entre cantigas,
a minha «sorte»!

- Oh Santo António, qual a «sorte», que me espera:
Uma vida de morte?
Uma vida de clara primavera?