sexta-feira, 26 de novembro de 2010

SACRO MONTE

Dum jardim, todo em flor, da Alhambra enfeitiçada,
contemplo o Sacro Monte…
e, a minha alma, na alma de Granada,
nesta hora de penumbra,
é uma chama a crescer, a palpitar de Vida,
a doirar o horizonte:
borboleta a queimar-se, entontecida,
no próprio sonho alado,
em que volteia, em que de espanto se deslumbra…
Um outro eu, distante, alheio e vago,
acorda, esparso em tudo,
na tarde que é um afago
de sombras de veludo,
de cinzas do Passado!

Oh Granada, que os ventos do Levante
abrasam de paixão… Oh incendida
miragem delirante,
no deserto sem fim da minha vida:
venho de longe… andei como a penar,
de ermo em ermo, na incerta caravana…
nem sei o que te conte
de mim, desta minha alma de cigana,
que volve, de saudosa, ao Sacro Monte,
a chorar, a sangrar!

«PASSEIO DOS CIPRESTES»

(Granada)

«Passeio dos Ciprestes…» A Tristeza
vestiu-me de sombria soledade,
ungiu-me de inefável suavidade,
de estranha comoção, doce pureza!

Insinuou-se em mim, com a levesa
duma penumbra sobre a claridade…
era um sentir, a medo, uma saudade,
um penar da minha alma portuguesa!

Murmúrio de água – toada de amargura –
vinha chorar em mim sua agonia:
era uma voz, que se perdia, escura…

«Passeio dos Ciprestes…» Nostalgia
do Céu… lá dessas terras da Ventura…
Que sonhos, no expirar daquele dia!

SEVILHA

Eras tão minha sem te conhecer,
Sevilha ardente: como se te vira,
no meu desejo imenso aparecer,
em bela flor de sol estremecer,
num surpreendente céu, cor de safira!

Em tuas mãos, o leque de mil cores:
cravos, bailados, toiros, «alegrias…»,
e, sobre o coração, altos fulgores,
incêndios desvairados de esplendores,
jóias de Virgens, loucas pedrarias!

Tuas músicas vibram, luminosas,
em lantejoilas de oiro, palpitantes,
em carne rubra, cálida, de rosas…
mas, choram sempre, em notas dolorosas,
o «cante jondo» e a alma de Cervantes…

Debruças-te, convulsa de paixão,
sobre a arena, onde tudo é sonho e Morte!
Pelo «traje de luces» da Ilusão,
arrancas do teu peito o coração:
é para quem te consagrou a «sorte…»

Oh maga terra em fogo: a tua vida
é feita dum sentido deslumbrante,
de inquieto crepitar de chama erguida,
de essência de jasmim, enlouquecida,
de ruivo sonho que delira, estuante!

Envolve-me na luz, que se incendeia
de amor, em tua graça de morena:
Ah, deixa-me perder na maré-cheia
dessa alegria que tão alto anseia,
Oh Sevilha da Virgem Macarena!

«BOLERO»

Na tarde, freme a cor de mil centelhas
do sol incandescente;
há uma alegria feita de vermelhas
exaltações dum mar aceso de rumores…
(Nem sei o que a alma sente!)
Perturbadoramente,
prossegue do «bolero» o vivo lume,
em surdas notas, que se exalam em perfume…
É o instante supremo da «faena»!
e, num bailado bárbaro, terrível,
Ele – o grande toureiro – está na arena,
ultrapassando o Inatingível!
E do «bolero» a música distante
desfolha flores
sobre o bailado, de desenho alucinante,
do toureiro que a fera já domina!
E, negro, é um bronze o toiro…
O pasmo nos fascina!
A multidão aplaude, ruge e grita;
e o «bolero» crepita,
em crespas notas de oiro…

Vermelho e oiro-sol! Ouvem-se bravos,
incendiados, da cor de ardentes cravos,
e da muleta, sobre a espada fria…
E do «bolero» a onda de harmonia
(longínqua e perto, esmorecida e forte)
diz todo o sonho da Andaluzia,
sonho de Vida e Morte!

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

AS LÁGRIMAS DO ÁRABE

Ao Roberto

Quando o árabe entrou na Catedral,
a par de si, o Tempo ajoelhou,
e doce auréola sobrenatural
a sua fronte deslumbrou!
Retrocedendo séculos distantes,
viu a Mesquita aberta, em horas calmas,
sem pórticos de sombra, - como dantes
era a casa de Deus, à luz das almas!
Aquela arcada imensa, perspectiva
dum cenário imortal de tempos idos,
ressurgia, na forma primitiva,
como que alucinava os seus sentidos!
A sua veste, na penumbra,
mìsticamente branca se quedara…
e eis que toda a sua alma se deslumbra
Ante a visão do Tempo que passara!
E os seus olhos arrasam-se, distantes,
de lágrimas e luz de áureos instantes!

E, nesse dia, a Catedral recebe
meditações e preces diferentes:
Para Jesus, no apelo dos seus crentes…
E para Alláh, no rito de Mogreb!

Córdova, Outono de 1950

JOSÉ ANTÓNIO

Ao Pedro

No Escurial, descansa, em pedra fria,
José António, em paz adormecido…
Túmulo simples, tão desguarnecido
como era a blusa azul que Ele vestia…

Uma palma de bronze, - alegoria,
a evocar o alto nome estremecido:
preito de nobilíssimo sentido,
fulge de Glória, de íntima harmonia!

Seu coração, na sombra do mosteiro,
abrange a Pátria imensa, num luzeiro
que é todo o ardor da sua fé tamanha!

E a sua alma, a florir, a abrir, contente,
por esse Espaço… é uma oração ardente,
pedindo a Deus a bênção para Espanha!

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

TOLEDO

A António Parreira Cabral

Abre o seu leque, em púrpura doirada,
a tarde, sobre a calma do horizonte:
e Toledo recorta-se de fronte,
de mim, como gravura desbotada…

O Tejo, adormecido, aos pés do monte,
- lâmina de aço, curva, cinzelada…-
Espera, pela tarde de balada,
que a Lua surja… poética desponte!

El Greco anda a pintar, na tela imensa,
o perfil da cidade, em forma esguia:
e, ele, em sombra do Tempo se condensa…

O Passado ressurge, ao fim do dia:
tão vivo e tão real como a presença
desta imagem, que é oiro de magia!

CIUDAD RODRIGO

Ao Tio Alberto

Quando abri a janela,
que singular visão!
era como se os campos de Castela
me tivessem florido o coração!
Este ambiente acorda,
dentro de mim, uma saudade louca!
nem sei que me recorda…
Sinto a bênção do sol na minha boca!
Qualquer coisa de sonho que foi meu,
(lembrança pura e calma…)
como sabor de luz vinda do Céu,
entrou em mim, quedou-se na minha alma…

Esta paisagem grave que eu olhava,
à luz do sol, a vez primeira,
era aquela que sempre me falava,
que sempre conhecera a vida inteira!
Pareceu-me que toda a minha vida,
ali, florindo, fôra,
em paz embaladora,
doçura indefinida…
De noite, eu só, nessa janela aberta,
era como fantasma em seu castelo,
a contemplar a vida que desperta,
depois dum pesadelo!

Ali, talvez, sofrera em outra era,
ali teria amado…
e, assim, tudo ficara à minha espera,
à espera que eu tornasse do passado!

Reminiscência dalgum longe incerto,
ou divagar da minha fantasia,
ressurgindo (miragem no deserto…)
da minha louca e vã melancolia?

Perpetuamente,
sempre a sonhar contigo,
fique, batendo em ti, meu coração,
Oh burgo esplandecente,
minha paixão,
Ciudad Rodrigo!

Nota

Os poemas seguintes continuam a ser do livro TERRA ARDENTE, mas dentro do capitulo IMAGENS DE ESPANHA

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

AQUELA PORTA…

Aquela porta… sim! aquela porta
sempre cerrada,
é sentinela morta,
que surge à entrada
do caminho da Vida!
Eu quero passar,
na estrada comprida
e cheia de luar!
Aberta esta porta,
a Vida é lá fora,
por mim a chamar!
Eu quero passar,
viver esta hora…
o resto, que importa?
Há música, há luzes, há gente que vive,
e tem o que eu sonho, e tem o que eu não tive!

É tarde, afinal… já não devo passar!
E caio, de joelhos, à porta, a chorar!

ALÉM DA MORTE

À memória da minha querida Avó

Tanto de mim se foi naquela hora
que sinto a minha vida quase morta…
mas presa, ainda, ao Mundo, pois não corta
as grades da prisão que me apavora!

Quero partir de todo! À minha porta,
a sua voz dorida, reza, implora,
para que a vá seguindo como outrora,
se o que resta da vida não me importa…

Tanto, tanto de mim foi a enterrar
com sua doce imagem de marfim,
que, além da Morte, há-de chamar por mim!

Ah, pudesse eu cumprir o meu desejo:
levar-lhe a minha vida… e, num só beijo,
dizer-lhe que podia descansar!

ÀQUEM

Os meus olhos, ao largo do horizonte,
perdem-se em vão anseio de Infinito!
Tudo é estéril tristeza! E, ao vento aflito,
desoladoramente, inclino a fronte!

Nem o clarear dum gesto que me aponte
o terminar da noite em que me agito;
sem que, da noite, enfim, se solte um grito,
sem que a luz dum milagre, enfim, desponte!

Sei, apenas, que vivo, porque existe,
sangrando, no meu ser, esta amargura,
que jamais me abandona: em mim persiste…

Vai mais longe que os longes da Planura
o meu olhar nevoento e vago e triste,
sempre àquem do que sonha e que procura!