sexta-feira, 25 de março de 2011

AO LONGO DO INFINITO

Eram blocos de mármore, suspensos,
as nuvens que ficaram na penumbra
desse morrer de luz, pelos Espaços!
Blocos enormes, fixos:
Na cadência da hora que medita
sobre a planície infinda,
azulada na bruma das distâncias…
E mais funda se cava
a solidão maior,
que irrompe, pela noite,
para afogar a luz
nas dobras do seu manto,
impiedosa, inclemente,
qual a Morte caindo sobre a Vida…

«SOLINA»

Tédio e poeira… À hora da «solina»,
tudo é dormente e mole! resplandece
a luz bravia! O fogo que a domina
e arrasta os nervos frouxos, entontece!

Quando se pisa a ervagem, aparece,
dum mundo oculto vida, que alucina:
em faúlhas crepita… às vezes, tece
no ar como que solta tremulina!

As «cega-regas» são a própria «calma»,
a palpitar em som no descampado,
que vibra, nesse ardor, de corpo e alma:

E pulsa como pulsa um coração…
Arde em febre o arvoredo ensanguentado
e cresce mais amarga a solidão!

AO LUME

O lume fascina,
atrai, encandeia,
deslumbra a visão!
e a casa está cheia
de imaginação!
Perfume a resina
de esteva bravia,
de sobro, de azinho:
Que doce harmonia!
Na hora da ceia
Faz-se a comunhão
do Pão e do Vinho,
à luz da candeia
e ao lume do chão!

O aroma rescende
a plagas distantes;
e doces, serenas,
nesse lumaréu,
as coisas pequenas
parecem gigantes
que chegam ao Céu…

TERRAS MORTAS

Terras mortas, em «calma» adormecidas,
neste reino cinzento de oliveiras,
onde a vida parou: como esquecidas
em silêncio profundo,
lá nos confins do mundo!
À sua volta, turbilhões de poeiras…
e uma cinza diluída
em prata fosca: os olivais sem fim!
lampadários eternos sobre a Vida,
que, a distância, são relvas de jardim!
E recorta-se, abstracta, a sua imagem
sobre o chão afogueado,
sobre a tristeza bárbara e selvagem
do descampado

Inertes de indolência, na quietude
do Tempo, as Terras mortas,
numa eterna apatia de atitude,
mudas, fecham ao Mundo as suas portas!

SÚPLICA

Oh Terra, Terra ardente, abre-me os braços,
Deixa-me sepultar meu coração:
que a minha alma perdida nos espaços
da tua imensidão,
chora de mágoa, anseia torturada,
no uivo da ressequida
voz trágica, monótona, do «Suão»!

Abre-me os braços, sim, apaga, num momento,
a chama que arde em mim, constante e louca…
enterra-me no pó do esquecimento…
sela de morte e de silêncio a minha boca!

ALUCINAÇÃO

É divina e febril esta alucinação!
Eu só, dentro de mim, segura e forte,
no domínio da Terra, em comunhão
da Vida com a Morte!
Meus sentimentos: temporal desfeito
que a natureza funde em seus lamentos
de terra, em coração, dentro do peito…
Meus loucos pensamentos
doiram distâncias mortas nos meus olhos:
e sigo, vencedora, entre os restolhos
da seara colhida, onde se nega
em estranha penitência,
o pão de cada dia, amargo e duro,
aos restos da humildade que se entrega!
Sou a revolta, o orgulho, a impaciência,
que o Passado reflecte no Futuro.

SOBREIRAL

O sobreiral, desfeito, em agonia,
sangrando em carne viva a sua dor,
dum vermelho escaldante, abrasador,
encharca a terra… e alonga o fim do dia…

Dessa beleza trágica irradia
um revoltado assombro de pavor,
condena-nos o bárbaro esplendor
que o nosso olhar deslumbra de magia!

Num mistério insondável, o arvoredo,
tem um espanto selvagem de recusa
que nos repele e afasta quase a medo!

Aterra-nos, hostil, a sua imagem
que em esfíngico segredo nos acusa,
ensanguentando as Almas e a Paisagem!

quarta-feira, 23 de março de 2011

HORA DE SOL

Minha hora de sol! marca mais cedo
o dia começado no horizonte:
banha de sangue, a terra, o arvoredo,
e acorda e resplandece em cada «monte»!
Os «ranchos» duma cor indefinida,
de há muito, vão de encontro à madrugada,
erguendo um cântico arrastado como a vida…
monótono, ondulante!
Como baga vermelha, incendiada,
o sol, nasce mais cedo para nós,
vem rolando na cinza do Levante:
parece vir do chão,
inteiramente a sós;
nada o encobre, além, na linha rasa,
onde se volta o Mundo,
(neste poder, sem fim, duma ilusão…)
e, dentro em pouco, a terra inteira abrasa
em louco ardor profundo!

A ceifa principia ao sol-nascente,
na cadência pesada de horas lentas,
e o cântico persiste, envolve o ambiente
em uma toada moira… Sonolentas,
as horas vão caindo sobre a «calma»
que arrasa os nervos, queima a própria alma…

Ao longe, desgrenhadas «almearas»,
como torres, perdidas, em ruínas,
em campo abandonado…
onde imagens de sonho, peregrinas,
ajoelham ante as sombras do passado!
E os «ranchos» vão surgindo na planície,
vencendo as linhas de oiro das searas…
os seus bustos de heróis, à superfície,
a marcar a presença da vitória,
nessa luta sem tréguas, incendida:
que o pão de cada dia não tem história,
é um direito à Vida!

TARDE MORTA

Nuvens turbam o céu… o sol as doira
no seu adeus à Vida, adeus de luz!
Arde em meu coração uma tristeza moira,
que deixa, na minha alma, a sombra duma cruz…
Choupos ascendem sempre… vão rasgando
os véus da tarde morta;
(a que vaga paragem
meu sonho indefinido me transporta?)
Um soluço abafado anda na aragem;
Vozes falam de Além, de quando em quando…
e, na tristeza imensa, que me invade,
- tristeza vã de Outono –
neste langue abandono,
eu não sou mais que uma saudade,
por mim própria chorando…

REVOLTA

Floriram as glicínias azuladas,
de novo, à minha volta:
E a vida insiste
em acordar lembranças já passadas,
que eu julgara apagadas
e que tornam, frementes de revolta!
Um bruxo encanto existe
no perfume envolvente que desperta,
ante a janela aberta,
tanta lembrança morta!
E a vida impera
na cor da Primavera…

E eu não a quero ouvir gritar à minha porta!

FRÉMITO AO LUAR

Arrepios de sombras inquietas
perturbam a noite, meu vago cismar!

Do vento se ergueu
um leve murmúrio
por entre a folhagem;
e, tal como eu,
perdida no mar
do meu pensamento,
ele estremeceu,
desperto no vento:
o vago murmúrio,
por entre o arvoredo,
quebrando o silêncio
de vidro da lua,
parado no ar!

Passou, como um sopro,
nas asas do vento!
durou um momento:
frémito ao luar…

CASTIGO

Pesa-me a sombra do poente exausto,
vencido pela treva:
Há nesse fogo extinto um bruxulear de fausto,
um apagar de vida que nos leva
à Morte! um vão desânimo profundo,
um desânimo estranho:
pena que vai até ao fim do Mundo,
e é dura e triste como o Santo Lenho!
Pesa-me a angústia do passado morto,
sob a noite profunda que asfixia
o que resta de luz! que desconforto
este acabar… este morrer do dia!

Anoiteceu…anoiteceu dentro de mim…
Pressinto… sei que esse negror eterno
jamais há-de ter fim!
E é este o meu castigo e o meu inferno!