segunda-feira, 30 de maio de 2011

ESTILHAÇOS DE SONHO

Cerro os olhos, procuro, em vão, esquecer…
o sentido cruel desta verdade:
Meu inferno de sombras
que me afoga de horror!
Estilhaços de sonho que me ferem,
sangrando ideias mortas
que o pensamento encarna em outros mundos
perdidos para sempre!
Pavor de um acabar envolve tudo
em pesadelo que jamais acorda
o caos, a derrocada onde me afundo!
Cerro os olhos… procuro em vão esquecer…
mas ficam a boiar
no espelho baço e triste da minha alma!

terça-feira, 24 de maio de 2011

NOVAS ERAS

Meus olhos de poeira abrem no espaço
esfíngicas, sonâmbulas quimeras;
a minha sombra enterro a cada passo
e avanço em novas eras!
Perdido na penumbra, o pensamento
por sobre névoa densa abre clareiras;
como o fulvo reflexo das fogueiras,
ateadas pelo vento,
rasga em visões de incêndio o nevoeiro!
e funde-as em delírio na memória
o todo que era dantes:
no limite vulgar da minha história
que nem tento esquecer: tudo se perde
ante a planície verde
dos meus olhos distantes!
Ultrapassando o curso que foi dado
ao meu espaço vital, impaciente,
não me resigno ao círculo marcado:
Vou além do que a vida me consente!

DELÍRIO

Que vou dar-te? Palavras sem motivo
nos instantes dispersos… seixos de água,
movendo, à transparência da corrente,
ideias afundadas em desânimo!
Que vou dar-te? Inquietante germinar
de sonhos imperfeitos
no céu coalhado e fundo,
nuvens sem rumo…
A minha sombra roxa
e a flor do coração, já quase morta,
a desfolhar-se, triste, em tuas mãos!
Que vou dar-te? Neblinas da montanha
rasgadas nas escarpas dos rochedos,
em pasmo, eterno… o meu delírio azul…
um crepúsculo a arder de encontro à noite
e a minha dor cruzando o teu caminho!

VIDA E MORTE

As roseiras tombaram, longamente,
por sobre o muro velho;
e abriram, de repente,
num sorriso vermelho,
sangrando vida em flor,
nesse musgo doirado
que vestia de rendas,
em pedaços, o muro abandonado,
como um sonho de Amor!
Distâncias que nos lembra, quando passa,
a luz da Primavera,
pela divina graça
de alguém que ainda espera
ver ressurgir um dia ignotas lendas
que a Morte adormecera,
na paz do esquecimento:
Numa doce e tranquila comunhão,
sentir este momento
de eterno simbolismo:
Vida e Morte, no tempo, entrelaçadas,
as roseiras vermelhas sobre o abismo
das sombras… abraçadas,
num doce encontro de Alma e Coração!

POEMAS INCERTOS

Os poemas incertos
em tempos perdidos
foram descobertos
pelos meus sentidos!
Abriram as asas,
levaram o sonho
sobre ideias rasas
que ainda suponho
vestir de poesia:
Desencontros de Alma
que, no dia a dia,
benze a verde palma
da Melancolia!

quinta-feira, 19 de maio de 2011

OFERTA DE ALMA

Como olheiras pretas,
nos teus olhos de água,
abriste-me a noite que foram teus dias:
Ramo de violetas,
numa oferta de Alma… A tristeza, pago-a
na moeda falsa doutras alegrias!
sem mostrar surpresa,
num mentir suave
que era luz, apenas,
pois seria grave
comungar na sombra que me aparecia,
num gesto, em beleza,
reflori distância… em cravos vermelhos…
que abriram sorrindo sobre as tuas penas,
como sobre espelhos
de melancolia!

ASSOMBRO

Foi preciso que o assombro me tomasse
e um medo atroz tolhesse, de momento,
esta razão estranha de não ser,
para que eu visse
o abismo onde caíra,
onde caíra exangue o meu delírio:
Num inconsciente turbilhão de formas
de agir, de proceder,
acordes dissonantes de incerteza,
em “De profundis” de alucinação,
A crepitar… a arder!

Depois, veio o silêncio
à superfície lisa
estagnar: era um lago
sem arrepios de aragem,
sobre a cratera extinta dum vulcão!

VELAS

Lá foram as velas, riscando no vidro
brilhante das águas
mensagens de luz:
legendas de espuma
num adeus de mar largo!
Das asas marinhas salgadas no ar
vinha uma presença de Terra partindo,
além, mundo fora!
em vez dos meus olhos
que, apenas, ao longe,
trouxeram das algas
vestígios de mar…

CINZA AO VENTO

E cada dia mais! Enterro as ilusões
que vão passando além
na procissão das almas!
Em cada dia surge um mal maior!
Crucificada a esperança, velo
pela Fé que agoniza ao fim da noite
e apaga o amanhecer!
A terra, abre-me a cova negra e triste
sem o lugar da Cruz!

E, ao longe… há cinza, ao vento…

quarta-feira, 18 de maio de 2011

DE OLHOS RASOS DE ÁGUA

Trouxeste aos meus olhos
a vaga indecisa
que a dúvida empresta
na hora precisa.
E arderam restolhos
na seara colhida
numa despedida
de sonho que resta!
Depois, no pousio
abriram papoilas
como lantejoulas
vermelhas! No rio
de pena que escorre
em tempo de espera,
se alguém nos esquece
jamais acontece
outra primavera
no todo que morre.

E fiquei parada
na curva de mágoa
sem flores, sem nada…
de olhos rasos de água!

OS SEM-ESPERANÇA

Vesti-me de mágoa; da mágoa cinzenta
do clima anormal onde a alma, emigrante
de sonho, descansa!
Que a dor não se inventa:
existe … persiste espontânea, constante…
aumenta e se lança
no subconsciente e arrasta, destrói
algum bem, se o há, que resiste ao naufrágio
das vãs alegrias que restam de nós!
Se a alma ferida ainda nos dói,
é só mau presságio
do Além dessa voz,
que chora na era de tudo que passa
e não se detém
na sombra, sequer, daquela encruzilhada,
que o tempo reparte e a hora estilhaça
de encontro ao sol-posto, outro dia que vem,
onde eu não serei outra vez madrugada!

Vesti-me de mágoa, de cinza e de pó!
e sobre o meu peito
desenha-se a cruz
dos sem-esperança:
tão negra e tão só,
sem nenhuma luz…
sem dor, nem lembrança…

DIAS PARDOS

Esses dias pardos
alargam penumbras
em tempos distantes
no meu coração!
(Perfume de nardos,
ainda deslumbras
a minha ilusão!)
Hoje resta, apenas,
sobre o campo triste,
um ramo de penas
que ainda resiste
às ideias mortas
de todos os dias,
entre a poeira e o tédio
das ervas bravias!
Nas frinchas das portas
geme o vento, implora
que o deixe passar …
e vem, lá de fora,
um mal sem remédio
pedir mais lugar!